Estamos de novo diante de mais um ano de eleições presidenciais. Não tenha medo de discordar, inclusive da pessoa amada. É estimulante. Na dialética do amor, por exemplo, cada um encontra no outro a oposição a seu argumento e pode exercitar e testar a própria idéia. Desde que, claro, não tenha a obsessão de vencer a qualquer custo. Por isso o período de campanhas eleitorais pode ter bons efeitos na vida amorosa. O segredo é bom humor e respeito. Não deve existir proibição de pensamento.
Conheço um casal a tal ponto harmônico e feliz que a mera presença deles torna os outros otimistas e convictos de que viver junto pode dar certo, trazendo alegria e companheirismo. Agora, pasmem. Estão casados há 40 anos, têm filhos e netos. E se alguém pensar que estão em sintonia no que se refere à política e votam ''em bloco'', enganou-se. Ela é filiada ao PSDB e ele, ao PT. Cito esse exemplo porque é atual -- quem se interessa pelo desenvolvimento do país está com a atenção voltada para os candidatos a cargos eletivos em outubro, especialmente de presidente da República. Mas também o menciono porque o comportamento de qualquer casal em relação às eleições reflete a maneira com que convivem.
É interessante observar os dois que julgo felizes. Em público, não discutem entre si. Quando o marido ou a mulher fazem um comentário, o outro não o contradiz e nota-se, por vezes, um sorriso de compreensão amorosa, sem nenhuma ironia. Como se estivessem sentindo admiração pelo raciocínio do outro, embora dele discordando. Essa maneira de reagir é uma verdadeira lição de amor. Tanto no que se refere à aceitação do parceiro, como no sentido verdadeiramente sensual do embate de idéias -- espécie de dança intelectual. De fato, é salutar quando os parceiros pensam de maneira diversa. Fica estimulante. Na dialética do amor, cada um encontra na ''cara-metade'' a oposição a seu argumento e pode exercitar e testar sua própria idéia. Desde que, claro, fique aberto à verdade, e não obstinado a vencer a qualquer custo e a impor a sua opinião. A divergência pode até ser motivo de graça, se os dois conduzirem a discussão em nível civilizado. O segredo é bom humor, descontração e o fundamental respeito: cada um defendendo a liberdade de pensamento do outro, sem manobra alguma que procure invalidar ou ridicularizar sua posição.
Vou além. O amor temperado pelas eleições pode até ser afrodisíaco. Não apenas porque é um intervalo excitante em eventuais tédios, como também porque as discussões são um momento propício de conhecimento recíproco mais profundo. A troca de idéias e os debates mostram melhor o jeito de ser e de pensar do outro. Podemos sentir o companheiro em sua radical diferença de nós. A campanha eleitoral na televisão, em breve, vai atravessar a sala de jantar e chegar ao quarto dos casais, levantando debates e polêmicas. Ninguém deve sentir-se obrigado a possuir, de antemão, um candidato mais certo. A hora é de discussão, de reflexão, de estar aberto às inúmeras e complexas variáveis que estão surgindo. É uma boa oportunidade para que casos, rolos, namorados, noivos, amantes e casados troquem idéias. Sem censura e com raciocínio articulado, aceitando as diferenças e posições divergentes. Será no saudável entrechoque de idéias e argumentos que a razão para a melhor escolha poderá vir à tona.
Cuidado, no entanto. A discordância eleitoral entre o casal também carrega o risco de brigas e até de separações. Um dos dois pode revelar um fanatismo até então oculto. Ou uma intolerância irascível ante opiniões contrárias. A política tem esse dom de atrair aspectos menos racionais do indivíduo. No calor das discussões, na maneira de falar, na dificuldade de aceitar a diversidade, no exagero dos argumentos, os parceiros podem perceber aspectos preocupantes até então não observados no outro. No limite, talvez ''caia a ficha'': a pessoa não é aquela imaginada, a convivência com ela será impossível. E isso, note-se, também é saudável: escapa-se de uma fria. Atenção, portanto. As eleições de outubro vão influir no destino do Brasil, dos brasileiros e podem também decidir o destino de nossos amores e amizades.
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Paulo Sternick é psicanalista no Rio de Janeiro e em Teresópolis. Escreve no DIARIO aos sábados. E-mail: psternick@rjnet.com.br Colunas anteriores podem ser lidas aqui. Veja : Rima sinistra
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