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Psicanálise - Paulo Sternick

PT ou PSDB?

Teresópolis, 08 de março de 2010

Estamos de novo diante de mais um ano de eleições presidenciais. Não tenha medo de discordar, inclusive da pessoa amada. É estimulante. Na dialética do amor, por exemplo, cada um encontra no outro a oposição a seu argumento e pode exercitar e testar a própria idéia. Desde que, claro, não tenha a obsessão de vencer a qualquer custo. Por isso o período de campanhas eleitorais pode ter bons efeitos na vida amorosa. O segredo é bom humor e respeito. Não deve existir proibição de pensamento.

Conheço um casal a tal ponto harmônico e feliz que a mera presença deles torna os outros otimistas e convictos de que viver junto pode dar certo, trazendo alegria e companheirismo. Agora, pasmem. Estão casados há  40 anos, têm filhos e netos. E se alguém pensar que estão em sintonia no que se refere à política e votam ''em bloco'', enganou-se. Ela é filiada ao PSDB e ele, ao PT. Cito esse exemplo porque é atual -- quem se interessa pelo desenvolvimento do país está com a atenção voltada para os candidatos a cargos eletivos em outubro, especialmente de presidente da República. Mas também o menciono porque o comportamento de qualquer casal em relação às eleições reflete a maneira com que convivem.

É interessante observar os dois que julgo felizes. Em público, não discutem entre si. Quando o marido ou a mulher fazem um comentário, o outro não o contradiz e nota-se, por vezes, um sorriso de compreensão amorosa, sem nenhuma ironia. Como se estivessem sentindo admiração pelo raciocínio do outro, embora dele discordando. Essa maneira de reagir é uma verdadeira lição de amor. Tanto no que se refere à aceitação do parceiro, como no sentido verdadeiramente sensual do embate de idéias -- espécie de dança intelectual. De fato, é salutar quando os parceiros pensam de maneira diversa. Fica estimulante. Na dialética do amor, cada um encontra na ''cara-metade'' a oposição a seu argumento e pode exercitar e testar sua própria idéia. Desde que, claro, fique aberto à verdade, e não obstinado a vencer a qualquer custo e a impor a sua opinião. A divergência pode até ser motivo de graça, se os dois conduzirem a discussão em nível civilizado. O segredo é bom humor, descontração e o fundamental respeito: cada um defendendo a liberdade de pensamento do outro, sem manobra alguma que procure invalidar ou ridicularizar sua posição.

Vou além. O amor temperado pelas eleições pode até  ser afrodisíaco. Não apenas porque é um intervalo excitante em eventuais tédios, como também porque as discussões são um momento propício de conhecimento recíproco mais profundo. A troca de idéias e os debates mostram melhor o jeito de ser e de pensar do outro. Podemos sentir o companheiro em sua radical diferença de nós. A campanha eleitoral na televisão, em breve, vai atravessar a sala de jantar e chegar ao quarto dos casais, levantando debates e polêmicas. Ninguém deve sentir-se obrigado a possuir, de antemão, um candidato mais certo. A hora é de discussão, de reflexão, de estar aberto às inúmeras e complexas variáveis que estão surgindo. É uma boa oportunidade para que casos, rolos, namorados, noivos, amantes e casados troquem idéias. Sem censura e com raciocínio articulado, aceitando as diferenças e posições divergentes. Será no saudável entrechoque de idéias e argumentos que a razão para a melhor escolha poderá vir à tona. 

Cuidado, no entanto. A discordância eleitoral entre o casal também carrega o risco de brigas e até de separações. Um dos dois pode revelar um fanatismo até então oculto. Ou uma intolerância irascível ante opiniões contrárias. A política tem esse dom de atrair aspectos menos racionais do indivíduo. No calor das discussões, na maneira de falar, na dificuldade de aceitar a diversidade, no exagero dos argumentos, os parceiros podem perceber aspectos preocupantes até então não observados no outro. No limite, talvez ''caia a ficha'': a pessoa não é aquela imaginada, a convivência com ela será impossível. E isso, note-se, também é saudável: escapa-se de uma fria. Atenção, portanto. As eleições de outubro vão influir no destino do Brasil, dos brasileiros e podem também decidir o destino de nossos amores e amizades. 

 

Paulo Sternick é psicanalista no Rio de Janeiro e em Teresópolis. Escreve no DIARIO aos sábados. E-mail: psternick@rjnet.com.br  Colunas anteriores podem ser lidas aqui. Veja: Rima sinistra