Os leitores devem lembrar-se do título de um filme: “Todos os homens do Presidente”. No domingo passado, Cristiano Dias, do “Estado de São Paulo”, escreveu um artigo sobre as leituras do Presidente eleito Barack Obama, intitulado “Todos os filósofos do Presidente”. Baseou-se na biografia precoce de David Mendell, intitulado “Obama, from promise to power”. O título da matéria foi um achado e remete ao auspicioso fato de que Barack Obama será o mais erudito ocupante da Casa Branca na história recente dos Estados Unidos. Entre nós, tivemos a oportunidade de experimentar um sociólogo no Planalto, Fernando Henrique Cardoso. E, um pouco antes, José Sarney, além de político tradicional, um escritor.
Barack Obama formou-se na Universidade de Columbia, fez doutorado em Harvard – ele é formado em Direito -, e recebeu ao longo da vida influência de pensadores. O biógrafo David Mendell garante que durante a Faculdade Barack Obama devorou a maioria dos livros de Friedrich Nietzsche, de quem herdou um espírito questionador. Já imaginaram, um Presidente americano nietzscheano? Quando os leitores teriam imaginado uma coisa dessas? Realmente, vivemos num mundo imprevisível – e este será o selo da nova presidência. Este será o selo do futuro de nossos dias, nestes novos tempos pós-modernos. Não acho que seja muita vantagem um Presidente erudito – ou uma pessoa erudita – se isto não for acompanhado de uma capacidade de pensar com ética e verdade.
É a nossa esperança quanto a Barack Obama: ética e verdade, dentro dos limites, claro, do que é possível em política. Fala-se numa diferença entre a ética privada e a pública. Mas ele é uma incógnita. Apesar da expectativa e da fé, vamos aguardar o que vai acontecer e como ele vai desempenhar suas funções. Parece uma pessoa da mais alta qualidade. A erudição pode ser uma qualidade inegável, mas apenas acessória, dependendo do uso. Tivemos a experiência de muitas outras autoridades que, apesar de eruditas, eram imprestáveis e até maléficas. Nazistas na Alemanha de Hitler, não raro, eram eruditos, apreciavam música clássica e liam escritores famosos. E matavam milhares de pessoas nas câmaras de gás.
Hanna Arendt mostrou como os grandes filósofos foram usados por ditadores. Há algo de totalitário nos sistemas de pensamento que se prestam a manipulações por vocações arbitrárias. Sigmund Freud, fundador da Psicanálise, isolou uma divisão psíquica em dois registros que podem conviver sem se tocar. A dimensão intelectual pode não fazer intercessão com o campo emocional e ético, e vice-versa. Claro que há uma vantagem incomparável se todas as qualidades se apresentam juntas e integradas, influenciando-se e irrigando-se reciprocamente. Este parece ser o caso de Barack Obama.
Um de seus maiores inspiradores é o teólogo Reinhold Niebuhr. Em sua obra- prima, “Homem moral, sociedade imoral”, Niebuhr afirma:“Os triunfos e tragédias da história são causados não pelo fato de as pessoas serem fundamentalmente boas ou más, mas por agirem simplesmente como pessoas”. Não sei se os leitores sabem, é dele a célebre formulação: “Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos - e sabedoria para distinguir umas das outras”.
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