Embora de partidos diferentes e históricos distintos, o Prefeito eleito de Teresópolis, Jorge Mario, e o líder das pesquisas para o Governo da cidade do Rio de Janeiro, Fernando Gabeira têm em comum o fato de serem a expressão do desejo de mudança e a esperança do novo em suas respectivas cidades. O sonho não acabou. Jorge Mario, com sua expressiva votação, conseguiu dobrar a inércia do eleitorado, numa vitória histórica contra o obscurantismo político que pretendia voltar ao poder nesta cidade. O avanço é ainda mais importante quando consideramos o medo do novo e a desconfiança quanto ao desconhecido que fazem parte da estrutura psíquica humana. O Estado do Rio de Janeiro, porém, chegou a tal grau de deterioração econômica e social, que a ânsia de renovação e recuperação superou os receios. Na verdade, o desejo do novo e o apego ao conhecido são uma das mais agudas ambivalências do ser humano. Desta vez venceu a vontade de renovação.
Ainda não tive oportunidade de conhecer Jorge Mario, exceto numa rápida apresentação feita por Ricardo Raposo, amigo comum. Já com Fernando Gabeira tenho uma história que começou nas passeatas contra a ditadura no final da década de 60. Ainda universitário, eu militava e ainda fazia a cobertura do movimento estudantil para um jornal carioca. Gabeira dirigia o Departamento de Pesquisa do antigo “Jornal do Brasil”, e para lá me levou, atendendo minha vontade de lá trabalhar. Eu tinha 21 anos, Gabeira devia estar com 26. Mais tarde, como psicanalista, ganhei sua confiança ao atender pessoa que lhe era próxima. O lendário Departamento - que até já foi objeto de tese de mestrado – era um setor “intelectual” do jornal, fazíamos a retaguarda da notícia, situando-a em seu contexto histórico, esclarecendo os leitores com textos ao mesmo tempo leves e consistentes. O atual líder das pesquisas para a Prefeitura do Rio se sentava de forma descontraída em frente à sua mesa, e lia todas as revistas e jornais brasileiros e estrangeiros. Sua capacidade de ficar lendo horas seguidas, em meio aos ruídos de uma redação de jornal, era impressionante.
Sempre notei nele a seriedade intelectual, a coragem, a ética de princípios sólidos e o senso de justeza que trouxe de Juiz de Fora. Naquela época, minha geração tinha o sonho de derrubar a ditadura que oprimia o Brasil e era ainda mais ousada: queria transformar o mundo constituindo uma sociedade mais justa. A história de Gabeira é conhecida de todos e sua reflexão crítica sobre aquele período cheio de distorções e ilusões pode ser lida em “O que é isso, companheiro” ou vista no filme do mesmo nome. De lá para cá, ele continuou militando – mais amadurecido, embora com a mesma originalidade - na vida política nacional, seja como jornalista, seja em seus seguidos mandatos na Câmara Federal. Em outro momento ele já tinha sido candidato à Prefeitura do Rio, tendo promovido um célebre “Abraço à Lagoa”, atraindo milhares de pessoas em torno deste lindo pedaço do Rio de Janeiro.
Combativo humanista e defensor das minorias, Fernando Gabeira, ganhando as eleições, certamente fará do Rio uma cidade mais séria leve e alegre, governando-a de forma original e inteligente, e certamente envolvendo a todos no sonho de resgatar nossa cidade que já foi maravilhosa. Acredito que Jorge Mario em Teresópolis também vai na mesma direção. Ventos da renovação sopram destas eleições, a esperança retorna aos corações de todos os que não acreditavam que as coisas podem mudar. E elas sempre mudam, mais cedo ou mais tarde, apesar das nossas descrenças.
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