Psicanálise - Paulo Sternick
 
Dr. Paulo Sternick

Psicanalista no Rio de Janeiro e em Teresópolis. Editor-cientifico de Gradiva e membro da Société Internationale d'Histoire de la Psychiatrie et de la Psychanalyse. Escreve no DIARIO DE TERESÓPOLIS aos sábados e para a Revista CARAS.

E-mail: psternick@rjnet.com.br

 

 
Depressão e fascismo
 

Uma das grandes restrições à psicanálise se refere à falta de comprovações científicas de seus resultados, apesar dela tratar de uma área - a subjetividade humana - onde é quase impossível aplicar este tipo de medição. Porém, esta semana, ouvindo a rádio CBN no carro, me deparei com grata surpresa, no programa sobre Medicina: o repórter revelou que saiu num prestigioso jornal médico americano um trabalho que comprova cientificamente a eficiência da psicanálise no tratamento de transtornos psiquiátricos severos. Pouco antes de ouvir o programa, atendia uma cliente no Leblon que falava da mãe de seu namorado que sofria de depressão e que já havia tentado suicídio. Perguntei-lhe qual era o tratamento que ela recebia, e a resposta foi que tomava antidepressivo, e nada mais. Na verdade, para estes casos, e para muitos outros que são tratados só com remédios, a participação da psicoterapia é imprescindível.

Outra surpresa da mídia esta semana veio de “O Globo” transcrevendo um artigo de Richard Cohen, do “Washington Post”, sobre a crise financeira mundial, intitulado “Bernanke sabe o que temer”. Ambos são judeus, Cohen e Bernanke ( aliás, felicitações ao povo judeu pelo “Rosh Hashaná”, o ano novo judaico, que aconteceu no início da semana). Como os leitores sabem, Ben Bernanke é o presidente do “Federal Reserve”, o Banco Central dos Estados Unidos – enfim, o Henrique Meirelles americano. Ele é especialista em depressão econômica (afinal, a depressão está em todos as esferas), especialmente na Grande Depressão, aquela que ocorreu em 1930.

Richard Cohen nos lembra que a depressão de 30 não foi apenas uma crise econômica, mas também política e cultural. Contribuiu para a expansão de regimes totalitários, na Europa e no Japão, e movimentos políticos negativos em outras partes do mundo. No Brasil, também por outros motivos internos, tivemos a ditadura Vargas. Cohen diz da crise atual: “A retórica de Washington parece desatenta a História. Considera apenas as questões financeiras, e busca, como qualquer político sem consciência, por réus. A Depressão nos ensina outra lição. Pela Europa, houve expansão do fascismo. Em outros locais, partidos comunistas foram incentivados. Pessoas desesperadas procuraram por soluções desesperadas”. E ainda: “A Grande Depressão não foi apenas um período de elevado desemprego e pobreza incrível. Foi também um período de Hitler e Mussolini.”

No plano do indivíduo, é interessante pensar na correspondência entre quanto ele ganha e sua qualidade cultural. Estamos habituados a uma correlação alta entre receita e auto-estima, pois sem dinheiro as pessoas não podem ter acesso aos bens de consumo e de informação que hoje parecem indispensáveis. Nem todos conseguem evitar uma deterioração na sua qualidade, não apenas de vida, mas psíquica, subjetiva, ética, estética e cultural. Acontece com o indivíduo uma correspondência do que foi mencionado na História. Estando a par disso, acho que ele pode se proteger melhor dessa tendência e  descolar mais sua auto-estima do quanto ele ganha, procurando outras fontes menos concretas de recompensa. A religião e a espiritualidade são uma delas, mas oferecem riscos de fanatismo e fechamento mental.


 
 
 
 
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