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Sérgio Britto, um dos maiores atores do Brasil, interpreta Beckett em duas únicas apresentações no Sesc dias 25 e 26

A direção é da atriz e especialista em Beckett Isabel Cavalcanti

23 de setembro de 2009

Sérgio Britto, um dos maiores atores do Brasil, interpreta Beckett em duas únicas apresentações no Sesc dias 25 e 26

Vencedor do prêmio de melhor ator do Prêmio Shell neste ano, Sérgio Britto leva ao palco do Sesc Teresópolis as duas obras de Samuel Beckett que lhe valeram o troféu. Sob a direção de Isabel Cavalcanti, atriz e especialista em Beckett, ele vai encenar “Ato Sem Palavras 1” e “A Última Gravação de Krapp” – que antes desta turnê teve apenas uma encenação no Rio há quase 20 anos – nos próximos dias 25 e 26 de setembro na unidade do Sesc Rio em Teresópolis, a partir das 21h, com ingressos a preços populares. As duas peças serão encenadas no mesmo programa.
“Ato Sem Palavras 1” percorre a gama de desejos frustrados do homem para alcançar conforto e alimento. Em “A Última Gravação de Krapp”, o velho personagem faz um balanço de sua vida, cheia de sonhos não realizados, usando para isto um gravador no qual estão registradas, há quase meio século, suas emoções, esperanças e frustrações. Sérgio Britto iniciou esta série de apresentações no palco do Teatro SESC Ginástico, no último mês de março, que rendeu ao ator uma leva de prêmios e elogios da crítica.

Beckett, por Isabel Cavalcanti
Dramaturgo, sim – mas também filósofo, crítico, analista, produtor de um novo olhar sobre a sociedade. Beckett, autor que está no pódio dos preferidos do veterano Sérgio Britto, nasceu na Irlanda em 1906 e no Brasil é mais conhecido como o autor de “Esperando Godot” – mas sua obra inclui, além das numerosas peças de teatro, criações para o rádio, a televisão, novelas, romances, poemas, ensaios, traduções e um roteiro para cinema. “Sua dramaturgia dialoga acidamente com a tradição ocidental e permanece desafiando a modernidade”, define Isabel Cavalcanti, ela própria uma especialista no autor irlandês, atriz, diretora e pesquisadora da obra de Beckett há dez anos, autora do livro Eu Que Não estou Aí Onde Estou: O Teatro de Samuel Beckett, publicado pela 7 Letras, Co-curadora e idealizadora do Festival Beckett 100 Anos, realizado no Oi Futuro e no CCBB/ Rio em 2006, e intérprete do personagem Clov na peça Fim de Partida que cumpriu temporada de êxito em 2007, no Espaço Sesc.

Estes dois textos dramáticos de Beckett ganham a interpretação de Sergio Britto em um momento iluminado de sua experiência, aos 85 anos.

Ato Sem Palavras 1
“Ato Sem Palavras 1”, criado em 1956 para o ator e dançarino Deryk Mendel (um mimodrama, lembra Isabel), vai percorrendo a gama desejos – frustrados – de alcançar conforto e alimento (um homem no deserto persegue em vão a sombra de uma árvore e água). As rubricas vigorosas foram minimamente adaptadas por Isabel Cavalcanti: “O próprio Beckett fez várias revisões do texto, e a última versão é de 1975. Estou trabalhando com as duas versões: a primeira e a última”, conta a diretora.
A idade de Sergio é, mais do que qualquer impedimento (devido ao caráter físico das marcas), uma riqueza incomensurável, segundo Isabel: “Isso dá uma dimensão mais profunda e aproxima a peça das coisas que eram realmente importantes para o autor: a impotência, o depauperamento físico, que é o depauperamento da matéria, a nossa fragilidade...”. É Beckett ao cubo.
Ato Sem Palavras deriva do interesse de Beckett nos comediantes do cinema mudo: Buster Keaton (para quem ele escreveu um roteiro de cinema), Ben Turpin e Harry Langdon, mas também reflete leituras sobre psicologia behaviorista que o autor fez na década de 30 (particularmente o livro A Mentalidade dos Macacos, de Wolfgang Köhler, sobre uma colônia de macacos, onde experimentos eram conduzidos e os macacos colocavam um cubo sobre o outro para alcançar uma banana) A personagem do drama de Beckett demonstra mais ingenuidade que os macacos, e, diferentemente destes, nunca alcança seu objetivo. A peça mescla sarcasmo e compaixão por nossa frágil e cômica condição humana.

A Última Gravação de Krapp
Em cena, um velho que passa em revista sua vida. Mas “A Última Gravação de Krapp”, escrita há cerca de 50 anos para o ator Patrick Magee, é, segundo Isabel, “a peça mais nostálgica, lírica e auto-biográfica de Samuel Beckett”. O velho Krapp, escritor, grava os acontecimentos mais marcantes do ano que passou e escuta passagens de anos anteriores, hábito cumprido por ele em todos os seus aniversários. Aparecem, nos relatos de Krapp, inúmeras personagens e fatos da biografia de Beckett como a morte da mãe, amores passados e uma "revelação" artística. Neste monólogo, Beckett testa os efeitos cênicos de uma invenção tecnológica recente na época: o gravador de rolo - objeto que, no palco, torna-se uma extensão da própria personagem. Ao passar em revista suas memórias, Krapp manipula o gravador e edita as próprias recordações.
A encenação de A Última Gravação, peça que fala de escuta, memória, recupera a poesia do gravador de rolo – este objeto obsoleto em tempos acelerados de avanço tecnológico. “A peça também pode ser entendida como uma releitura de Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust, um dos autores franceses preferidos de Beckett”, finaliza Isabel.
Com cenários de Fernando Mello, figurinos de Ney Madeira e iluminação de Tomás Ribas, a peça (Krapp) tem tradução de Ângela Leite Lopes e direção de produção de Luiz Joselli.

O Teatro SESC Teresópolis fica na Avenida Delfim Moreira 749. Iinformações (21) 2743-6939. O espetáculo começa às 21h e os ingresso custam R$ 12,00 e R$ 6,00 (estudantes e espectadores com mais de 60 anos). Comerciários pagam R$ 3,00.
Classificação: 16 anos.